14 de fev de 2018

Dumbledore, JK Rowling e a Representatividade

Dumbledore é gay!!! 
Vivaaaaaaaaaa 

Pelo menos é o que disse a autora J.K. Rowling após o término da franquia literária. E ai você se pergunta: mas como eu nunca percebi isso? Pois bem, a autora te dá a resposta. Em seu twitter após questionamento semelhante de um fã que dizia não conseguia ver que Dumbledore era gay, J.K. simplesmente respondeu:

"Talvez porque pessoas gays são como... qualquer pessoa?" 




Justo! Dumbledore não era um personagem mal feito de novela das oito onde os estereótipos gritam de forma caricata. Era um senhor comum como qualquer outro senhor independente de sua sexualidade, com o diferencial do universo mágico em que vivia. Para os fãs, é gostosinho saber que por trás daquele ser há uma representação. Ela não precisou ser explicita, para quem leu os livros e se encantou por aquele personagem só agregou mais uma informação dentre as muitas que nos faz amá-lo. Mas a história não acabou por ai!

J.K. resolveu expandir este universo e eis que surge uma oportunidade para ver além do Dumbledore diretor de escola, senhor gente boa e que gostava de sorvete de limão e junto vieram as esperanças de ver Dumbledore amar aquele que tornou-se seu arquiinimigo. A esperança foi para o ralo junto com o depoimento do diretor que deixou claro que não vai rolar, pelo menos não neste segundo filme de Animais Fantásticos deixando os fãs espumando de raiva redes afora. Mas, realmente é preciso esse ódio todo?

Sou fã de carteirinha dos livros (desculpe-me amantes dos filmes, mas eles não captaram nem a metade da riqueza que as histórias originais. Mas reconheço, são bons também apesar dos pesares). E como fã, sei que tantos outros fãs ão de reconhecer que a temática TOLERÂNCIA AS DIFERENÇAS mesmo que não descaradas, elas são facilmente comparáveis as nossas questões do mundo real como, por exemplo, a luta entre os "Sangues Puros" e "Sangues Ruins" semelhante a Hitler contra os Judeus. Ou quando Hagrid é massacrado por ser meio Gigante, chegam a enviar-lhe cartas que o ferem só por ser o que ele é semelhante ao que a comunidade LGBT passa todos os dias. E são incontáveis as referências, cada qual com seu peso e sua representatividade embora fictícia e muitas vezes metafórica. Com Dumbledore não é diferente!

Nos livros não há nada que diga que Alvo Dumbledore é gay e sinceramente, não mudaria em nada tal informação. Mas já que J.K. nos brindou com essa notícia ficamos felizes. Claro! É muito legal saber que o personagem mais carismático, inteligente, poderoso (Grindelwald e Voldemort o temiam) e gente boa apaixonado por picolé de limão e doces mágicos é um gay que, assim como muitos gays, - mesmo que a classe conservadora relute em entender - é sensacional sendo quem ele é. Ser gay é só mais um aspecto dentre vários que nos faz amá-lo. Não dá para entender porque a militância resolveu problematizar o fato de que não será o foco principal do segundo filme da franquia Animais Fantásticos!

Ou será que dá?

J.K. andou pisando errado na passarela do bom senso. Para alguém que escreveu obras tão complexas sobre respeitar ao próximo, fora deveras contraditória quando protegeu a permanência de Johnny Depp (acusado de agressão física a sua ex-esposa). Lamentável e indefensável! Porém, como o historiador Karnal aponta em seu livro "Todos contra Todos", estamos em um período de partidarismos: é certo ou errado. É 8 ou 80. Não existe meio termo! A partir de uma decisão errada de J.K. nos vimos obrigados a escolher um lado: odiá-la e julgá-la por cada respiro futuro que a mesma der ou protegê-la até a morte. Eu particularmente prefiro acreditar que ela é uma excelente autora com suas falhas morais que são sim questionáveis, mas que não excluem seu talento imortalizado nas páginas dos livros. Do 8 ou 80 prefiro acreditar na média, que é aquela em que refletimos racionalmente e não como torcida de futebol.

E onde Dumbledore entra?

No meio de um ato falho todos os outros gritam aos nossos olhos. Mesmo que não sejam atos falhos! J.K. não disse em nenhum momento que não será evidenciado a sexualidade do personagem, ela só não será o principal. Alias, a relação de Grindelwald com Dumbledore vai além da paixão física e sentimental, ambos compartilharam inteligência e ideologias. A possibilidade do poder de um fascinava o outro e é nesse sentimento que houve o divisor entre o bem e o mal, mais complexo do que se eles iam para cama juntos ou se nutriam algum tipo de sentimento homo afetivo. Quero muito ver a vida do nosso Diretor instituído pela Ordem de Merlin ainda jovem, ainda errante, ainda intenso e espero que esse fragmento do todo que o compõe - sua sexualidade - não fique de fora mas se pensarmos com um pouquinho de calma entenderemos que não é e nunca foi o principal. E pra quem argumenta que a J.K. fez isso pra vender: bom, ela só falou da sexualidade de Alvo ao fim do lançamento dos sete livros, muitos anos antes de ser roteirista de Animais Fantásticos. Nada fora vendido por este motivo, mas sim, por ser uma ótima literatura infanto-juvenil.

A representatividade está lá nas páginas para quem quiser ler. Talvez não esteja com os nomes que nós trouxas (não bruxos) conhecemos como negros, mulheres, judeus, LGBT, etc, mas quem estiver disposto em entrar neste mundo mágico com certeza se encontra ali. É muito bom que esse movimento de questionar a indústria e de se questionar referente a representação aconteça mas, neste caso, estamos indo um pouco longe demais (e não é no bom sentido).








8 de dez de 2017

Blog, quem lê?!

Blog, quem os criou merece os parabéns!

Não se sabe ao certo sua função, afinal, é um meio tão democrático que pode ter absolutamente de tudo, como pode não ter absolutamente nada. A principio, a ideia era se tornar um diário digital, uma modernização do que nós, quando meninas, já fazíamos. Páginas em branco para escrever nossas anedotas cotidianas, todo e qualquer conteúdo de interesse pessoal. Hoje é utilizado por empresas, pela publicidade e se tornou um grande mercado de trabalho. Mas voltemos a sua raiz, aos diários.

                                                                                                                




Afinal, quem nos lê?



Sim, quantas pessoas estão interessadas em ler a vida alheia, de alguém que, assim como eu e você, são anônimos?! meros desconhecidos que por sorte e pela ascensão tecnológica possui internet e um computador? É estranho mas a verdadeira realidade é que escrevemos para o vazio. Para o nada ou, por ventura, a um ou outro que sem querer clicou em um link perdido pela rede e caiu em sua página, alavancando sua estatística. Mas não importa! Um blog não é feito exatamente para chamar a atenção, não um blog pessoal pelo menos.


Todos temos o que falar. Há sempre aquele pensamento, aquele acontecimento, aquela opinião que perambula pela cabeça e que precisa sair. E não importa se alguém lê ou não, se alguém entende ou não. O que estava dentro da mente, intangível ser que parece ganhar vida, torna-se físico, códigos que o fazem existir no mundo material em que os sentidos, no caso a visão, pode transitar e registrar. 

Particularmente, eu sempre gostei de escrever. Quando adolescente era fonte de sonhos trabalhistas, tornar-me jornalista. Cresci. Hoje não é mais que mero passa-tempo e, claro, terapia (embora eu guarde os "textos catárticos" escritos a mão em meus itens pessoais, postando um ou outro subjetivamente pelas redes afora). 

A internet proporcionou essa maneira desconhecida de falar para todos e, ao mesmo tempo, não falar com ninguém. E, ainda assim, falar consigo. 

6 de mar de 2017

Deu ruim!



E aí pessoal, faz tanto tempo que não escrevo, mas estou de volta.

Bom, acho que é perceptível que os textos já publicados estão temporariamente fora do ar. E eis o motivo: estava eu numa bela noite de março configurando meu celular enquanto saboreava a delicia que é estar de volta ao mundo do Android (quem já teve um Windows Phone irá me entender) e, pra minha alegria, o aparelho veio com Google Fotos gratuito. Tudo certo até então. Foi quando vi fotos que eu não gostaria de armazenar lotando minha galeria. Sem pensar duas vezes eu as apaguei. Dias depois é que descobri que todas as fotos contidas ali eram de armazenamento do Picasa (nem sabia que isso ainda existia) e que o blogger automaticamente envia as imagens de suas publicações para lá.

Burrice? Eu sei. Estou ligada! Porém os textos estão bem, obrigada! Nessa presepada somente as imagens deram adeus.

Logo mais estarei republicando os textos antigos e alguns novos. 

Por enquanto fiquem com a imagem desse gatinho...porque gatinhos são legais:





23 de set de 2015

MÚSICA | Entrevista com Duda Brack


Eba, mais uma entrevista no Perdi A Chave! Okay, essa é uma entrevista antiga que realizei para um outro portal mas agora, com disco lançado, vale muito a pena relembrar. 

A conversa foi com a cantora Duda Brack. Uma jovem de vinte anos que já carrega em sua trajetória premiações e admiradores assíduos que, mais do que ouvir, degustam, saboreiam e se lambuzam com sua voz. Extremamente simpática, aceitou responder algumas perguntas dessa blogueira (e fã) impertinente que vos fala. Confira abaixo essa entrevista e ouça o álbum "É" completo.




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Eu: Que sua voz é notavelmente linda, até os ouvidos mais dispersos conseguem perceber, quero saber como foi o inicio de sua carreira. Em qual momento veio à sua mente “eu sou cantora”?

Duda: Sempre digo que sou a vontade de cantar, e não a cantora. Nunca me percebi cantora. Percebi a necessidade, o impulso de cantar, quando eu fiz quinze anos. Não cantava antes - só no chuveiro. Tampouco tinha qualquer tipo de relação estreita com música, mas comecei a me experimentar. Cantei em bares, em grupos vocais, ouvi muita música, convivi com artistas. Mergulhei fundo numa busca de me entender nesse mundo e compreender o que eu queria fazer com isso. Foi um ʻafloramentoʼ. Não nasci cantora, de cimento, de barro, me fiz e me faço cantora no ato (porque amar é agir!).

Eu: É muito nova ainda – 20 anos de idade, uma menina – e o mais notável em sua música é a interpretação e as letras que são, na sua maioria, pesadas, dotadas de uma melancolia onde o ouvinte consegue senti-la em sua voz. Há alguma vivência ou inspiração que utilize para chegar ao resultado final de suas músicas? Tem algum apego ao escolher qual irá interpretar?

Duda: Acredito que toda vivência é a inspiração, e mais, a matéria prima desse resultado final, consciente ou inconscientemente. A gente externa aquilo que nos atravessa, que nos perfura. Estar vivo é estar exposto à todos esses estímulos. Por isso a escolha do repertório é tão substancial e emblemática na construção do trabalho de um intérprete. A gente escolhe cantar o que a gente queria dizer e não consegue. É um ʻdesafogamentoʼ. Sou muito minuciosa e cheia de apegos pra escolher o que vou cantar. São várias instâncias de apego: busco a melodia que me cabe na voz, busco a mensagem que eu quero sustentar, busco uma subversão dos caminhos óbvios, busco algo que meu corpo possa cantar junto, busco sentir que a música precisa de mim tanto quanto eu preciso dela (tipo varinha do Harry Potter, que escolhe o bruxo, sabe? rs), mas tudo é isso é secundário. O que de fato determina é o quanto aquilo tudo, no conjunto da obra, me é absoluta e incontrolavelmente visceral, e aí os porquês não tem mais a menor importância. É totalmente passional.

Eu: Sei que é uma pergunta difícil, cada artista sente uma sensação única no palco. Mas e você? Como se sente?

Duda: Palco é: ʻeterutopiaʼ; parir sentidos; oxigenar a vida; ode ao abismo; mover o dom; esbugalhar entranhas; ferir o são; romper toda possibilidade de impossibilidade; sedução; dançabilidade; amar sem calcular; livrar-me da loucura de minha própria criação; cuspir a alma pela boca; trepar curiosidades de belezas acesas; sustentar as purezas sujas; quebrantar-se; quebrar-se; brandar-se; brindar; desvelar o sagrado segredo de tocar o intocável intocado pra morrer na boca de um orgasmo.

Eu: Quais são suas principais influências na música?

Duda: Aí é difícil. São tantas! Tem o leite materno - coisas que ajudaram a construir meu primeiro pensamento musical, como: Tom Jobim, Djavan, Maria Gadú, Elis Regina, Ella Fitzgerald, Gil, etc. Mas, nesse momento da vida: Fiona Apple, Caetano Veloso, Gal, Lenine, Ana Cañas, Ney Matogrosso, RadioHead, LedZepplin, Vitor Ramil, Bjork, Jeff Buckley, Chico Cesar, Moska, The Dead Wheather, Pink Floyd, Stones e, sobretudo, contemporâneos meus (falo mais sobre eles na próxima pergunta).


Eu: Atualmente, devido a programas de financiamento coletivo e encontros musicais, muitos músicos estão se unindo de diferentes pontos do país para mostrar sua arte (cito como exemplo a cooperação para o “Na vida anterior” de João Guarizo que contou com muitos artistas no Catarse). Como você vê essa nova geração da MPB e toda essa interação que atualmente se expande cada vez mais?


Duda: Acho isso tudo a coisa mais maravilhosa do mundo. Essa interação expande galáxias no trabalho de todo jovem artista hoje. Música é troca, é comunicação, é comunhão. Quanto mais essa interação for ativada, tanto mais cresceremos, e isso não só em relação à construção musical e artística mas também no que tange a disseminação destes novos trabalhos e formação de público. Voto que cada vez mais as vidraças da individualidade sejam rompidas, pra que a gente viva cada vez mais e mais essa ʻsurubaʼ musical . Mais do que uma nova geração de MPB emergindo, me atento e me atenho a comentar sobre trabalhos de contemporâneos meus que tem, a meu ver, contribuído para o desenvolvimento de uma linguagem universal da música: RUA, Posada e o Clã, Baleia, Ventre, Cícero, Paulo Monarco, Caio Prado, Cesar Lacerda, João Cavalcanti, Phill Veras, os meninos do 5 a Seco todos, Dani Black, Lucas Vasconcelos, Bruna Moras, Julia Vargas, Pietá, Thales Silva, e tantos e tantos e tantos outros, que tem todo o meu respeito e admiração. Uns mais conservadores, sustentando a tradição de nossa música. Outros mais ousados, que subvertem os caminhos óbvios e propõe um ineditismo maior (esses tem minha reverência, porque são parte de minha busca).

Eu: Como você vê a importância da internet em sua carreira e esse cenário musical que nasce e se expande por intermédio da web? Já conheceu cantores ou fez parcerias musicais por intermédio da mesma?

Duda: E tem como não achar maravilhoso? Em tempos de reformatação do mercado fonográfico e midiático a internet é o que mantém acesa a fagulha da possibilidade de realização. A internet é de uma importância substancial, pois é o que permite que nosso trabalho exista no mundo, para além do nosso controle e poder de alcance.Já conheci vários cantores e compositores por meio da internet e estabeleço várias trocas.

Eu: Falando em interação, o Because Ousa nasceu de um encontro entre outros grandes jovens músicos. Qual sua relação com essa música e como foi pra você defende-la e vencer no Festival de Música de Sorocaba?

Duda: ʻBecause Ousaʼ foi um divisor de águas no meu caminho musical e na minha vida; foi paixão à primeira ouvida, e foi arrebatador. Ela foi o meu primeiro movimento, na construção de um trabalho autoral. Me parece que ali emergiu algo que, para o público que recebia, apontava, sublinhava quem era a Duda. Ali acho que as pessoas começaram a se atentar para o que eu tinha a dizer. Fizemos 8 festivais com ela e fomos premiados em todos. Gravamos ela no projeto ʻMúsica de Graçaʼ da Dani Gurgel. Ela me rendeu experiências maravilhosas que me possibilitaram entender mais do meu ofício (física e espiritualmente); ela me fez amadurecer e me descobrir mais; ela me abriu portas para várias outras trocas; ela conquistou um pequeno (mas absolutamente significativo!) público com quem eu estabeleço hoje uma troca. 


Eu: Soube que em breve seu filho irá nascer – o seu primeiro CD – o que podemos esperar dele? Fale-nos mais sobre esse projeto.

Duda: Trata-se de um trabalho autoral, sobre ineditismos de compositores contemporâneos meus, os quais foram escolhidos à dedo, não só pelo meu interesse artístico de interseccionar cada um desses universos com o meu trabalho, mas também por questões afetivas (de trocas que já vinham se estabelecendo há um tempo). É um disco de banda - que reflete o meu encontro com os três músicos e com o produtor do disco; é uma construção coletiva; é o NOSSO disco. Muito amor, admiração e gratidão por todos os envolvidos. É um disco subversivo, que sustenta a tradição da canção, mas desconstrói o modo com o qual ela é abordada, explorando novas sonoridades. É um disco troncho e sedutor. Fala sobre coragem, sobre paixão, sobre abismo, sobre dor, sobre certezas e incertezas, sobre sonho e sobre fé. É um retrato de quem eu sou agora, do que me atravessa, do que inquieta, me integra, e é o mel do meu melhor. Quanto ao que vocês podem esperar dele: acho complicado responder isso. Me pego pensando que gostaria que vocês não esperassem nada, rs. Gostaria que vocês simplesmente o recebessem com uma escuta corporal e sensorial aberta às novas possibilidades que proponho ali. A única garantia que posso dar é de que foi feito com todo amor que já fui capaz de abrigar nessa vida. Muito amor, com todas as formas, de todos os jeitos em todos os gestos.

Eu: E falando em futuro, já tem em mente aonde quer chegar? Quais são os seus sonhos nesses caminhos musicais?

Duda: Sou muito grata à Deus, à vida, por tudo que tem me acontecido desde que eu comecei a fazer música, e sobretudo sou grata ao modo como tudo isso tem sido construído - com solidez, entrega, trabalho, dignidade, com lindas descobertas, com pessoas incríveis fazendo parte dessa construção. Acho que o que eu mais desejo é seguir desfrutando dessa plenitude e expandindo-a a cada conquista. Desejo cada vez mais poder conviver, trabalhar e trocar com pessoas maravilhosas e que eu admire. Desejo cada vez mais descobrir a ʻinfinitudeʼ de possibilidades que a música é. Desejo me descobrir, cada vez mais. Desejo crescer, aprender, melhorar, contribuir, agregar, e dar algum sentido (pra mim e pro mundo) à minha existência.


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O tempo passo e cá está o filho nascido, forte, profundo, lindo! Boa degustação a todos! 





Saiba mais sobre Duda Brack 

23 de ago de 2015

Vamos Juntas? | Entrevista com a criadora do projeto que incentiva mulheres a andarem juntas e se protegerem em situação de risco


Ah facebook, como gostamos de você! Não só pelo seu entretenimento que nos faz ficar horas e mais horas em frente a uma tela mas porque aproxima pessoas. Melhor, aproxima histórias! E o Vamos Juntas? é prova disso. 


Com o objetivo de conscientizar o público feminino de sua força, o movimento Vamos Juntas? incentiva mulheres a se acompanharem em ambientes que ofereçam riscos. Quantas vezes você que lê esse artigo agora já não se sentiu desamparada ao andar a noite pelas ruas voltando do trabalho ou faculdade?! Bom, nem eu e menos ainda você somos as únicas a se sentirem assim. O curioso é que em nosso bairro, no serviço ou até mesmo no transporte que utiliza há pessoas com os mesmos receios, então, por que não vamos juntas? 




Imagem: Divulgação



O blog Perdi a Chave procurou a idealizadora desse projeto, Babi Souza - jovem jornalista de 25 anos, residente no Rio Grande do Sul e que além de ter criado essa lindeza que mostra como a união nos faz mais forte, ainda foi extremamente simpática ao responder essa entrevista - para uma conversa. 

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Confira a entrevista exclusiva:


PERDI A CHAVE: Andar acompanhada já é até prática comum entre as mulheres, porém, muitas vezes, de forma inconsciente. Como foi a criação do “Vamos Juntas?”? Houve alguma vivência pessoal que desencadeou na idealização do projeto?

BABI SOUZA: O movimento começou, de fato, no dia 30 de julho, mas digamos que a sementinha dele, dentro de mim, germinava há algum tempo. Sempre fui vista como uma jornalista idealista que tem o sonho de mudar o mundo, e realmente tenho. Não que eu tenha a megalomania de achar que o mundo não viveria sem mim e tal, mas acho que tenho a responsabilidade de "mudar" o MEU mundo e o mundo a minha volta, como acho que deveria pensar qualquer cidadão. Nesse sentido, vinha pensando muito sobre a relevância que eu tinha, não tanto como jornalista, mas principalmente como ser humano. Foi quando comecei a estudar e pesquisar sobre colaborativismo e empreendedorismo social. Entrei em contato com a incrível ideia de que as pessoas têm o poder de melhorar as suas vidas através da união e que juntos podemos mais e somos mais felizes. A velha ideia de que a união faz a força e de que ao invés de reclamar dos poderes, devemos nos propor, juntos, a deixar o nosso mundo um pouquinho melhor.

Como já estava em contato com essa forma de ver o mundo, o movimento surgiu como solução colaborativa para um problema real que passamos todos os dias. Tive o estalo no caminho de volta para casa me sentindo insegura por passar pelo centro de POA à noite. Convidei a Vika Schimitz (que hoje é designer do movimento) para montarmos um card (texto em imagem) explicando qual seria a ideia do movimento. A ideia era postar apenas nas minhas redes sociais para contar a ideia para as minhas amigas mas a repercussão foi tanta que em menos de duas horas pessoas de fora do meu circulo de amizade estavam compartilhando a imagem e perguntando se tínhamos página, aí que criamos ela.


PERDI A CHAVE: São 57 mil curtidas (Até o momento da entrevista. Hoje já conta com mais de 120 mil curtidas) na fanpage oficial em menos de um mês. Você acredita que tal desenvolvimento seja reflexo de um medo que, infelizmente, já é parte do cotidiano feminino? Como é pra ti lidar com as vozes de tantas mulheres que se fazem presente a partir das postagens do “Vamos Juntas?”?

BABI SOUZA: É incrivelmente emocionante receber tantos relatos de mulheres desconhecidas. Quase que posso ouvir dentro de mim uma voz que diz "sim, aquilo que as pessoas falam sobre a desunião das mulheres é mentira". Primeiro porque elas confiam e acreditam na gente para contar sua história que às vezes nunca tiveram coragem de falar para ninguém e segundo porque a grande maioria delas contam ocasiões em que mulheres Se uniram e juntas foram mais tranquilas e felizes. Muitas têm me adicionado no face, inclusive, apenas para agradecer. É muito emocionante. Posso ver um sinal de que o futuro do mundo realmente é mais bondoso e colaborativo.

PERDI A CHAVE:   “Não eduque suas meninas para se protegerem, mas sim, seus meninos para as respeitarem”. Pensando nisso, como é a participação do público masculino com a página e com a ideia de acompanhamento a mulheres?

BABI SOUZA: Dá para sentir que eles têm bastante dificuldade de entender como nos sentimos na rua, mas temos recebido muitas mensagens deles. Algumas no sentido de “nossa, não entendi direito pra que serve o movimento” e outras no sentido de “obrigada por terem criado esse movimento, me sinto preocupado pela minha namorada/irmã/mãe”. Uma vez compartilhamos na página a frase “Só as mulheres entendem o alívio de olhar para trás na rua e ver que a pessoa que está caminhando atrás de você é outra mulher.” e um homem comentou “Não são só vocês, a gente também sente isso”.

PERDI A CHAVE:  Mesmo ainda sendo recente o “Vamos Juntas?” possui um cunho sólido de conscientização para a segurança pública. Além dos usuários das redes sociais, o projeto já angariou algum apoio de entidades públicas? Quais são os planos para o futuro?

BABI SOUZA: Algumas prefeituras têm nos procurado com a ideia de difundir a ideia em suas cidades e nós apoiamos isso. Também tem meninas e (e até um menino) que pediram permissão para colocar cartazes do VJ? Em suas escolas. <3

PERDI A CHAVE:  A internet é objeto presente na vida de grande parte dos moradores de grandes cidades. A seu ver, qual é o papel dessas ferramentas (mídias sociais) para ações que beneficiam a mulher e a sociedade? Já houve muitas criticas ao “Vamos Juntas?” e, se sim, como você reage diante delas?

BABI SOUZA: Não tivemos muitas críticas, não. Apenas alguns homens que não entendem porque ele existe e outras mulheres que dizem se negar a confiar em outras mulheres na rua. Sobre a internet, acho que o movimento é uma prova de que ela é uma ferramenta mobilização incrível com um poder enorme quando falamos de um assunto relevante para as pessoas.


PERDI A CHAVE:  Para encerrar, deixe seu recado às leitoras (e leitores) do Perdi a Chave.

BABI SOUZA: Convido todas a se unirem umas às outras e a acreditarem na sororidade. Se tiver dúvidas sobre se ela realmente existe, visitem a página e tenham a prova de que nossa união é possível, sim. <3



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Veja algumas das histórias enviadas para o "Vamos Juntas?"

ENTREVISTA | Vamos Juntas?
Imagem: Divulgação


Em um mundo ideal não precisaríamos andar juntas para nos proteger, tal ação seria somente um ato de coleguismo ou amizade. Infelizmente, a violência contra a mulher aumenta cada vez mais. Em 2014, foram registrados cerca de 50 mil casos de estupro no território nacional, número que passa distante do real pois há muitos casos que não chegam nem a ser denunciados e, portanto, não entram nos dados estatísticos.  Ações como a da Babi Souza nos mostram que podemos sim nos proteger, olhar para a garota ao nosso lado e identificar que o medo dela também pode ser o nosso e que, consequentemente, a força dela em enfrentar também pode ser a nossa. 

Conheça essa ideia na fanpage oficial clicando aqui , conte sua história, conheça muitas outras e compartilhe essa ideia com suas amigas, colegas ou até mesmo com desconhecidas que encontrar em seu caminho.